Publicado por: paulabertho | janeiro 27, 2012

A infância

Ler Camus para mim é um exercício de felicidade. Poderíamos até formar uma dupla… Muitas das suas experiências batem com as minhas. Num certo lugar ele escreve notas para um romance: “Infância pobre. Eu tinha vergonha da minha pobreza e da minha família. Só conheci essa vergonha quando me puseram no liceu. Antes, toda a gente era como eu e a pobreza parecia-me o próprio ar desse mundo. No liceu foi-me dado comparar. “Num outro lugar ele comenta: “Que pode um homem desejar de melhor do que a pobreza? Não disse miséria nem o trabalho sem esperança do proletário moderno. Mas não vejo o que pode desejar-se a mais do que a pobreza ligada a um ócio ativo.” Foi exatamente essa a minha experiência. Minha infância foi vivida na pobreza. A princípio, grande pobreza. Depois, pobreza simplesmente. Desses anos não tenho uma única memória infeliz. Tive dores, como toda criança tem: dor de dente, dor de tombo, dor de barriga, dor de queimadura. Mas não tive experiência de infelicidade. Minha infelicidade começou quanto a vida melhorou e nos mudamos de uma cidade do interior de Minas para o Rio de Janeiro. Meu pai me matriculou num colégio de cariocas ricos que falavam no “xis”, como a Malu Mader. E eu, menino de roça, falava no “erre”, o mesmo “erre” de Piracicaba e Tatuir… Foi então que, como Camus, senti vergonha da minha pobreza e da minha família: eu era diferente, não pertencia ao mundo elegante dos meus colegas.. Num outro lugar do seu Diário Camus registrou: “Atenção: Kierkegaard, a origem dos nossos males está na comparação.” Kierkegaard foi um solitário filósofo dinamarquês. Os desbravadores são sempre solitários. Vêem coisas que os outros não vêem. Como foi o caso de Nietzsche. Kierkegaard foi meu primeiro amigo filósofo. Com ele tive longas e mansas conversas.  Sua filosofia é construída em meio a uma teia de sutis percepções psicológicas. O sofrimento da pobreza, quando não é miséria, se encontra na comparação. A miséria é diferente da pobreza. A pobreza está muito próxima da simplicidade. Simplicidade tem a ver com as coisas que são essenciais. Por isso Jesus dizia que os pobres são bem-aventurados. Simplicidade é caminhar com uma mochila leve. A riqueza, ao contrário, é caminhar arrastando muitas malas pesadas, sem alças… A pobreza simples é uma pobreza feliz. Feliz porque leve. É a comparação, origem da inveja, que a torna infeliz. Camus e eu experimentamos a infelicidade da comparação na escola. Mas hoje não é preciso ir à escola para sentir a sua maldição. Basta ligar a televisão. A televisão é uma máquina de infelicidade na medida em que ela nos obriga a comparar. Os pobres, nos lugares mais distantes, ligam as novelas, e sentem a sua desventura. A comparação é um exercício dos olhos: vejo-me; estou feliz. Vejo o outro. Vejo-me nos olhos do outro. Ele tem mais do que eu. Ele é mais do que eu. Vendo-me nos olhos dos outros, eu me sinto humilhado. Tenho menos. Sou menos. Para me livrar da dor da comparação, eu fujo dos seus olhos. Retiro-me do seu espaço. Como no mito da Queda. O homem e a mulher sentiram vergonha e coseram para si mesmos tangas. Para que o outro não visse. O sofrimento das pessoas que são portadoras de diferenças, quaisquer que sejam, é idêntico. Foi a minha inclusão numa comunidade religiosa, com todos os seus absurdos, que me salvou. A experiência de sentir-se aceito por uma comunidade tem o poder de dissolver todos os absurdos. Outro período de sofrimento semelhante foram os anos em que fui professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, na UNICAMP. Por razões semelhantes. Sobre isso escreverei numa outra ocasião.

Rubem Alves

Publicado por: paulabertho | janeiro 25, 2012

O silêncio fala

Como o recurso retórico conhecido como reticências ou aposiopese é capaz de aumentar a força de um enunciado ao reduzir-lhe o tamanho

Mário Quintana escreveu um curto poema muito interessante, “Da discrição”:

“Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também…”

O que é singular neste poema, na forma de um conselho, é que no último verso interrompe-se o que se está dizendo e essa parada do ato enunciativo é marcada por três pontos. Mas sabemos como continua esse poema: o teu segredo será conhecido de todos. Nesse caso, o contexto permite-me depreender o que deixou de ser proferido e, por isso, o silêncio fala. O poeta diz sem dizer.

Temos o procedimento retórico denominado “reticências” (do latim “reticentia”, “ação de guardar alguma coisa dentro de si, de calar-se”, palavra formada do radical “tacere”, “calar-se”, que aparece em termos como “tácito”, “taciturno”) ou “aposiopese” (do grego “aposiópesis”, “ação de se interromper quando se está falando, parar de falar, silêncio”), em que se detém uma afirmação, não se completando o que se dizia. Há, então, uma diminuição da extensão do enunciado e um conseqüente aumento de sua intensidade. É mais forte dizer sem dizer do que dizer dizendo. Esse procedimento retórico é marcado na escrita por três pontos.

No capítulo V de “Ressurreição”, de Machado de Assis, na seguinte passagem, “Naquela idade as paixões são soberanas. Seria inútil querer dissuadi-la, e ainda que não fosse inútil, seria desarrazoado, porque viúva moça… Ela amava muito o marido, não?”, é mais intenso deixar que o contexto diga que uma viúva moça não seria governada pela paixão a um só homem do que explicitá-lo claramente. Na parte IX do “Sermão da Sexagéssima”, Antônio Vieira alcança maior veemência em seu juízo negativo sobre os pregadores ao não dizer o que pensava deles por respeito ao lugar sagrado:

“Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei, e fala como rei; o lacaio veste como lacaio, e fala como lacaio; o rústico veste como rústico, e fala como rústico; mas um pregador, vestir como religioso e falar como… não o quero dizer, por reverência do lugar. Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia se quer, não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício?”.

Por José Luiz Fiorin, professor do Departamento de Lingüística da USP e autor do livro “Astúcias da Enunciação” (Ed. Ática).

Publicado por: paulabertho | janeiro 24, 2012

Arquitetura das idéias – 2ª parte

 

Clareza

O desembargador José Renato Nalini, do Tribunal de Justiça de São Paulo, avalia que o grande desafio hoje é ser simples e direto em todos os campos. Assim deve ser também no Direito, diz ele, ainda mais hoje que grandes trechos de outras decisões podem ser recortados e colados facilmente com as ferramentas da informática.

- Costumo brincar que, se você precisa de 10 laudas para argumentar que tem algum direito, significa que esse direito não é tão evidente assim – avalia.

Nalini considera que o texto jurídico atualmente tem de se equilibrar entre a boa técnica e a clareza, que garante que o homem comum vá entender o que está decidido. Para ele, é preciso superar uma corrente de advogados, promotores e juízes que tende a abusar da linguagem difícil, recheada de termos latinos.

- A decisão é mais legítima quando as partes conseguem entender o que está escrito nela. O exercício da linguagem jurídica não pode ser uma finalidade em si – acredita.

A estrutura formal do texto jurídico é prevista na Constituição e nos Códigos de Processo Civil e Criminal: é preciso descrever o caso, fazer o enquadramento legal e fundamentar a decisão. Os recursos em geral se baseiam em contra-argumentar os fundamentos da decisão judicial. Nalini, que faz parte da Academia Paulista de Letras, afirma que a peça jurídica não pode ficar presa apenas ao Direito.

- Na medida em que uma decisão consegue estabelecer um diálogo com outras esferas do conhecimento, como a economia e a sociologia, suas ideias se tornam mais claras – opina.

Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/imprime.asp?codigo=12472, edição nº 74, dezembro/2011.

Publicado por: paulabertho | janeiro 23, 2012

Arquitetura das idéias – 1ª parte

Para estruturar argumentos é preciso pensar o texto como uma rede de produção que inclui a leitura, a pesquisa e até sua realização

 

Potência

Hamilton Ribeiro brinca com uma frase do cronista Rubem Braga. “Escrever é fácil: começa o texto com letra maiúscula e termina com o ponto final.” Como em uma ciência exata, diz ter chegado a uma fórmula do grande texto argumentativo, que aplica ao jornalismo: G = (BC + BF) x (T x T’)n. Ou seja, grande texto é um bom começo mais um bom final, multiplicado por talento vezes trabalho elevados à “potência necessária”. Para ele, o bom começo desperta o interesse no leitor de chegar até o fim do texto.

- É o anzol que vai fisgar o leitor – compara.

O bom final vai lhe dar a satisfação de ter lido.

- É preciso deixar um gosto de quero mais, como naquele filme que você gostaria que tivesse mais alguns minutos – exemplifica.

Para explicar “potência necessária”, ele recorre à história sobre o carro da rainha Elizabeth, do Reino Unido.

- Dizem que a Rolls-Royce construiu um carro para que ela pudesse percorrer suas terras sem correr o risco de atolar ou parar por falta de força no motor. Quando lhe perguntaram qual era a potência daquele carro para não falhar diante dos obstáculos, a rainha respondeu: a necessária – diz.

Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/imprime.asp?codigo=12472, edição nº 74, dezembro/2011.

Publicado por: paulabertho | janeiro 20, 2012

Elegância no comportamento

Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.

É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.

É uma elegância desobrigada.

É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam, nas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas ou garçons; nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.

É possível detectá-la em pessoas pontuais.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

Oferecer flores é sempre elegante.

É elegante você fazer algo por alguém e este alguém jamais saber disso…

É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.

É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.

É elegante o silêncio, diante de uma rejeição.

Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto.

Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo.

É elegante a gentileza…

Atitudes gentis, falam mais que mil imagens.

Abrir a porta para alguém… é muito elegante.

Dar o lugar para alguém sentar… é muito elegante.

Sorrir sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma…

Olhar nos olhos ao conversar é essencialmente elegante.

Pode-se tentar capturar esta delicadeza pela observação, mas tentar imitá-la é improdutiva.

A saída é desenvolver a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, que acha que “com amigo não tem que ter estas frescuras”.

Educação enferruja por falta de uso. E, detalhe: não é frescura.

 ~ Martha Medeiros ~

Publicado por: paulabertho | janeiro 19, 2012

Sobre a atitude de ler

“A poesia – toda – é uma viagem ao desconhecido. A poesia é como a lavra do radium, um ano para cada grama. Para extrair uma palavra, milhões de toneladas de matéria-prima.”

Maiakóvski (1893-1930), poeta, dramaturgo e teórico russo

“As palavras pronunciadas passam, as escritas permanecem; as pronunciadas entram pelos ouvidos, as escritas pelos olhos.”

Padre Antônio Vieira (1608-1697), escritor e orador português

Publicado por: paulabertho | janeiro 14, 2012

Ver o sol…

É tempo de ver o sol, ainda que seja noite (ainda que chova),
pois sabemos, “racionalmente”, que o sol não sumiu,
apenas se escondeu para que a lua se exiba no céu.

 

Então, deixar-se aquecer pela certeza de que a felicidade não sumiu,
apenas deu um tempo para que a tristeza se exibisse,
nos mostrasse que o melhor de tudo é ser feliz,
e que, se perdeu um amor, não perdeu a capacidade de amar;
se perdeu um dente, a boca ainda está no lugar;
se perdeu um emprego, a experiência ainda está lá;
se perdeu um parente, outro ficou para cuidar;
se perdeu um sonho, esta noite foi feita para sonhar.

 

Mas não nos percamos de nós, que isso sim é difícil de achar.

 

O resto é manter a chama do amor acesa,
pois somos essencialmente feitos de amor;
tudo em nós é música suave, é poesia e calor,
nós é que nos escondemos, nos assustamos, esfriamos.

 

É tempo de acender tochas amorosas em nós mesmos,
espalhar o amor como semente generosa
e confiar que no tempo certo, colheremos,
cestos e cestos de flores perfumadas,
perfume de muito valor,
o perfume do amor.

 

Paulo Roberto Gaefke

Publicado por: paulabertho | janeiro 12, 2012

Refletindo em 2012…

“O perigoso não é pensar grande e não conseguir; o perigoso é pensar pequeno e conseguir.” (Luís Marins)

“Ser líder é como ser uma dama: se você precisa provar que é, então você não é.” (Margareth Thatcher)

“O insucesso é apenas uma oportunidade para recomeçar de novo com mais inteligência.” (Henry Ford)

“Uma pergunta prudente é metade sabedoria.” (Francis Bacon)

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” (Jean Paul Sartre)

“Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo de plantamos.” (Provérbio chinês)

“A boa madeira não cresce com sossego; quanto mais forte o vento, mais fortes as árvores.” (J. Willard Marriott)

“Deixai quieta a água lamacenta que ela por si só, se tornará transparente.” (autoria desconhecida)

“A felicidade é a única coisa que podemos dar sem possuir.”

Publicado por: paulabertho | janeiro 11, 2012

Para refletir apenas

Publicado por: paulabertho | janeiro 10, 2012

Adagiário de Quintana

DAS INDAGAÇÕES
A resposta certa não importa nada; o essencial é que as perguntas estejam certas. 

DA FELICIDADE
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

DA OBSERVAÇÃO
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio…

~ Mário Quintana ~

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