Como o recurso retórico conhecido como reticências ou aposiopese é capaz de aumentar a força de um enunciado ao reduzir-lhe o tamanho

Mário Quintana escreveu um curto poema muito interessante, “Da discrição”:
“Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também…”
O que é singular neste poema, na forma de um conselho, é que no último verso interrompe-se o que se está dizendo e essa parada do ato enunciativo é marcada por três pontos. Mas sabemos como continua esse poema: o teu segredo será conhecido de todos. Nesse caso, o contexto permite-me depreender o que deixou de ser proferido e, por isso, o silêncio fala. O poeta diz sem dizer.
Temos o procedimento retórico denominado “reticências” (do latim “reticentia”, “ação de guardar alguma coisa dentro de si, de calar-se”, palavra formada do radical “tacere”, “calar-se”, que aparece em termos como “tácito”, “taciturno”) ou “aposiopese” (do grego “aposiópesis”, “ação de se interromper quando se está falando, parar de falar, silêncio”), em que se detém uma afirmação, não se completando o que se dizia. Há, então, uma diminuição da extensão do enunciado e um conseqüente aumento de sua intensidade. É mais forte dizer sem dizer do que dizer dizendo. Esse procedimento retórico é marcado na escrita por três pontos.
No capítulo V de “Ressurreição”, de Machado de Assis, na seguinte passagem, “Naquela idade as paixões são soberanas. Seria inútil querer dissuadi-la, e ainda que não fosse inútil, seria desarrazoado, porque viúva moça… Ela amava muito o marido, não?”, é mais intenso deixar que o contexto diga que uma viúva moça não seria governada pela paixão a um só homem do que explicitá-lo claramente. Na parte IX do “Sermão da Sexagéssima”, Antônio Vieira alcança maior veemência em seu juízo negativo sobre os pregadores ao não dizer o que pensava deles por respeito ao lugar sagrado:
“Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei, e fala como rei; o lacaio veste como lacaio, e fala como lacaio; o rústico veste como rústico, e fala como rústico; mas um pregador, vestir como religioso e falar como… não o quero dizer, por reverência do lugar. Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia se quer, não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício?”.
Por José Luiz Fiorin, professor do Departamento de Lingüística da USP e autor do livro “Astúcias da Enunciação” (Ed. Ática).








