Publicado por: paulabertho | novembro 7, 2010

Sobre “ser alfabetizado”

Ser alfabetizado vai muito além de usar códigos

Ler e escrever têm a função de comunicar algo.
No início do aprendizado da leitura, a criança apenas decodifica o texto.

Ana Cássia Maturano, Especial para o G1, em São Paulo

Uma das exigências para que uma pessoa ocupe um cargo eletivo é que seja alfabetizada. Para tanto, deve apresentar um comprovante de sua escolaridade ou uma declaração escrita por ela própria.

Sem poder comprovar a escolaridade, o deputado mais votado do país Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, apresentou uma declaração de próprio punho, contestada pelo Instituto de Criminalística. Diante disso, foi denunciado à Justiça comum e eleitoral como possível analfabeto, podendo vir a perder o cargo. A Justiça poderá marcar uma audiência para que ele prove o contrário através de uma prova de leitura e escrita.

Esta prova consiste na leitura em voz alta de um texto simples, sem ter que mostrar a compreensão que teve dele; e na realização de um ditado, quando deve escrever o que ouve, não sendo levadas em conta a grafia ou ortografia corretas. Ou seja, para uma pessoa ser considerada alfabetizada basta que seja um codificador ou decodificador de palavras e textos.

Ser alfabetizado vai muito além de usar códigos. Pessoas assim são apenas analfabetos funcionais, escrevem e leem, porém são incapazes de usar essas habilidades na sua vida. Melhor dizendo, são incapazes de dar sentido para aquilo que escrevem e leem.

Ler e escrever têm a função de comunicar algo. A prova em questão só terá valor para avaliar a habilidade leitora se o que for lido fizer sentido e comunicar algo para o leitor. Para isso, é necessário que se verifique o entendimento feito do texto.

Quem acompanha uma criança em seus primeiros anos escolares observa que muitas vezes ela lê uma história, por vezes curta e simples, mas não consegue compreender o que se passa nela. Isso se deve ao fato de que no início do aprendizado da leitura ela nada mais faz que decodificar o texto. Quando esta capacidade estiver desenvolvida, aí sim ela começará a dar um sentido maior ao que lê. Não podemos dizer que essa criança esteja alfabetizada.

O mesmo acontece com a escrita. Apenas escrever o que se ouve não faz da pessoa alguém capaz de produzir um texto legível e compreensível. Legível no sentido de usar regras comuns à linguagem escrita e com conteúdo com um mínimo de significado. Não apenas um amontoado de palavras.

Não me parece que a prova a ser aplicada para que alguém demonstre ser alfabetizado revele algo nesse sentido.

No Brasil e na América Latina, analfabeto funcional é aquele que tem mais de 20 anos e possui menos de quatro anos de estudo formal. No Canadá, a escolaridade mínima é de oito anos.

Esses critérios também são relativos. Principalmente quando observamos o desenvolvimento escolar efetivo de muitos daqueles que estudam vários anos nas nossas escolas públicas. Alguns terminam os quatro anos de estudos ainda analfabetos funcionais.

Estar alfabetizado de maneira funcional – alfabetismo funcional – envolve a capacidade de usar a linguagem escrita de maneira efetiva, possibilitando que a pessoa se comunique, informando-se e expressando-se através dela. A alfabetização se dá pela vida toda.

Fica difícil imaginar que uma pessoa que não seja funcionalmente alfabetizada consiga propor, editar ou revogar as leis de um país, como o deputado federal tem que fazer.

Mais que uma questão política, essa questão envolvendo o deputado eleito mostra a confusão que ainda se faz sobre analfabetismo e alfabetismo, que tem ocultado o verdadeiro nível de alfabetização do nosso povo e impedido que o Brasil se desenvolva mais.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)


Responses

  1. Boa noite! Parabéns por tão gratificante aula, Prof. Paula!
    Estou prestando vestibular pela Univem, no próximo domingo, depois de 3 décadas longe dos estudos. Fiz jornalismo na FIAM em 1980, 81 e em 82 precisei interromper o curso.Morava em SP e em março deste ano me mudei para Marília.
    No curso ministrado por vc hj, era a mais velha, no meio de tantos jovens , e mesmo assim me senti muito a vontade e feliz em poder , mesmo que aos 52 anos, ingressar novamente no mundo universitário!
    Linda aula!
    Um abraço,
    Beatriz H de Campos Freire

    • Muito obrigada, Beatriz, pelas gentis palavras. Fico feliz, por você, pela decisão de voltar à universidade. Aliás, sem demagogice, o que valerá de minha parte é que você consiga aproveitar e direcionar as orientações de ontem para suas necessidades futuras; aí sim entenderei que tudo terá valido e muito. Por outro lado, me sinto quase na obrigação de dizer-lhe que costumo entender que a juventude das pessoas encontra-se na sua motivação. Logo, ontem, seu ávido olhar e interesse por ouvir, passavam-me a impressão de que era uma das mais jovens em sala. Parabéns pela iniciativa. Sucesso na prova e realizações futuras.
      Abraços,
      Profª. Paula Bertho

  2. Prof Paula,
    Só hj estou lendo sua resposta e obrigada também pelas palavras encorajadoras e gentis! Dia 31 estarei já na Univem … muito empolgada! (Designer Interiores)
    Tenho também este ano, a tarefa de escrever o livro das memórias de meu pai,(que já é falecido e era titular em Urologia na USP), com a ajuda de uma intermediária e apta no assunto.
    Foi um grande prazer conhecê-la, e fico realmente encantada com a maneira como consegue passar com clareza e objetividade qualquer tema que escolha.
    Abraços e obrigada,
    beatriz Helena Campos Freire


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