Publicado por: paulabertho | outubro 25, 2012

A teia mental da linguagem

Como agem as redes neurais que permitem a interação humana

 

Por muito tempo, o estudo linguagem se restringiu à análise das línguas, e só em seus aspectos gramaticais (fonológicos, léxicos, sintáticos) ou sociais. Ao mesmo tempo, falar é algo tão intuitivo que é uma das primeiras coisas que aprendemos na vida. Por isso, não nos damos conta da complexidade dos processos mentais envolvidos na formulação de uma simples frase. Só na década de 90 (“década do cérebro”), pesquisas sobre funcionamento da mente, pela neurociência, lançaram luz sobre a relação entre o cérebro e a linguagem. O desafio é explicar não só como somos capazes de aprender a dominar um código complexo como a linguagem em idade tão tenra, mas como é possível formular enunciados complexos e dotados de lógica em fração de segundos. Ou seja, como conseguimos pensar e falar ao mesmo tempo. Essas pesquisas inauguraram ciências de fronteiras como a neurolinguística (não confundir com Programação Neurolinguística, que é técnica de auto-ajuda) e a semiótica cognitiva.

 

Processo

Como exceção dos provérbios, das frases feitas e das expressões idiomáticas (“puxa vida”, “que legal”, “só me faltava essa”, “não me admira”, “só se for agora”), que já estão estocados na memória, as frases e os textos que produzimos, oralmente ou por escrito, são inéditos e irrepetíveis: nunca os dissemos antes, nunca os diremos de novo. Então, como fazemos para criá-los? O ato lingüístico parte de uma elaboração mental, que se dá num nível conceptual profundo, de maneira abstrata, como se nossa mente convertesse os conceitos (todas as “coisas” em que podemos pensar) e as relações entre eles em equações matemáticas.

Esse processamento se assemelha ao de um computador (na verdade, o computador é simulacro da mente humana), pois o cérebro trabalha com impulsos elétricos. É claro que, quando pensamos, imagens surgem na nossa mente, mas como imagens já são uma forma de linguagem, também são decorrência desse processamento abstrato prévio.

 

Estrutura vazia

A partir daí, e de maneira bem resumida, pois a descrição detalhada do processo demandaria um livro, o enunciado conceptual formulado passa por vários níveis de transformação para resultar nas imagens, sons, palavras e gestos que povoam nossa cabeça enquanto pensamos (e que já são linguagens).

No caso da linguagem verbal, é nesse ponto que entra em ação a gramática universal proposta por Chomsky. A partir dela é que o cérebro busca formas lingüísticas correspondentes na língua nativa do indivíduo (ao falar língua estrangeira, o processo é ainda mais complicado).

Nesse momento, dois módulos cerebrais distintos, responsáveis pelo vocabulário e pela sintaxe, interagem de modo a criar uma estrutura sintática “vazia” (por exemplo, sujeito – verbo – complemento) a ser simultaneamente preenchida com palavras. E já se sabe desde Saussure (início do século passado) que a língua é estrutura sintagmática linear, em que cada “casa” (cada sintagma) é preenchida por um elemento extraído de um paradigma, ou seja, de uma lista de elementos que podem ocupar aquela posição.

Isso significa que, à medida que construímos uma frase, criamos uma estrutura sintática e preenchemos seus sintagmas com palavras que escolhemos em razão da conceptualização que havíamos realizado. Isso me obriga a decidir, por exemplo, com qual termo completarei a frase “Milton Nascimento é um grande ________”: “cantor”, “artista”, “músico”…?

 

Redes neurais

Mas quando pensamos numa palavra, acionamos simultaneamente várias redes neurais.

Junto com o conceito vem a imagem acústica da palavra, isto é, sua pronúncia (e, nesse caso, ouvimos internamente nossa voz e maneira de pronunciar), e, no caso das pessoas letradas, sua imagem gráfica, em cursivo ou letra de imprensa. (Quem grafa “atravez” ou “kilo” demonstra não ter imagem gráfica associada a essas palavras, pois tal imagem se fixa na mente com o hábito da leitura.)

Mas vem também toda uma teia de associações com outras palavras, por similaridade (“aquecimento” x “calor” x “quente”) e por contiguidade (“aquecimento” x “global”). Vem a estrutura morfológica da palavra em termos de flexão (gênero, número, conjugação verbal, regência, etc.), pois temos de inseri-la numa frase em que ela terá de concordar com outras. Vem ainda a carga semântica que a palavra tem para nós (lembranças de ocorrências do vocábulo que nos marcaram, imagens mentais evocadas por ele, sensações e sentimentos associados), o que nos faz preferir certos termos a outros, configurando assim o nosso estilo pessoal de falar ou escrever.

 

Imagem motora

Por fim, a ocorrência de uma palavra na mente aciona uma imagem motora, isto é, um conjunto de instruções que o cérebro envia aos órgãos responsáveis pela comunicação.

Se estamos falando, junto à imagem acústica vem o esquema muscular de nosso aparelho fonador; é por isso que, mesmo quando pensamos ou lemos, nossa língua se movimenta dentro da cavidade bucal como se falássemos de boca fechada.

Se estamos escrevendo, o esquema muscular consiste em instruções enviadas pelo cérebro às nossas mãos – e há uma grande diferença entre escrever à mão ou digitar num teclado: nosso cérebro desenvolveu dois esquemas musculares diferentes, correspondentes a essas duas habilidades manuais distintas. Vem ainda a gestualidade associada à palavra, como quando dizemos “Legal!” e simultaneamente estendemos o polegar para cima, num gesto de aprovação.

O mais surpreendente é que, sobretudo no caso da fala espontânea, todo esse processo se dá em frações de segundo, o que mostra que o cérebro tem uma velocidade de processamento que os computadores mais sofisticados ainda não conseguiram alcançar. E ocupando um volume menor do que muitas CPUs.

Aldo Bizzocchi é doutor em Lingüística pela USP e autor de “Léxico e ideologia na Europa Ocidental” (Annablume Editora); www.aldobizzocchi.com.br

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