Publicado por: paulabertho | novembro 20, 2012

Lições Prosódicas

Lições Prosódicas

por Eduardo de Moraes Sabbag

Certa vez, apliquei uma prova de Português, cujo tema era a pronúncia de vocábulos. Pedi aos alunos que se manifestassem sobre a frase abaixo, justificando-se à luz das regras de prosódia:

“A subsunção do termo à pronúncia correta é a subsistência da prosódia.”

Subsídios para quê?

O resultado não foi satisfatório. O estudante teve que enfrentar a pronunciação de palavras que nos “pregam peças” dia a dia: subsunção, subsistência e subsídio.

Vamos à explicação:

Muito utilizado na linguagem forense, o verbo subsumir tem a acepção de “algo que se encontra compreendido em” ou, mais tecnicamente, “o conceito da concordância ou enquadramento de um caso concreto com o preceito abstrato”. Entretanto, a celeuma não se encontra em sua definição, mas na pronúncia e na conjugação verbal. Antes de aprendermos a pronunciar com perfeição o verbo, é necessário atenção à conjugação verbal. Para alguns, trata-se de verbo regular; para outros, irregular.

A dúvida é instigante: deve-se falar “ele subsume” ou “ele subsome”?

Como verbo irregular, o radical sofre modificações nos tempos verbais, conjugando-se como “sumir”. Se digo “ele some”, direi “ele subsome”; se anuncio “eles somem”, anunciarei “eles subsomem”. Nessa esteira, segue o rigor da lexicografia do Aurélio.

Em outro giro, como verbo regular, o radical permaneceria imutável, não provocando dificuldades ao anunciante. É o ponto de vista do eminente dicionarista Houaiss. Note a conjugação, no presente do indicativo: eu subsumo, tu subsumes, ele subsume, nós subsumimos, vós subsumis, eles subsumem.

Diante da divergência, como ficaremos? Em homenagem à simplicidade, recomendo aos meus estimados alunos que considerem o verbo como regular. Portanto, falaremos “ele subsume”, em vez de “ele subsome”, não obstante reconhecermos que são formas igualmente dicionarizadas.

Superada a conjugação verbal, faz-se necessário enfrentarmos a pronúncia no vocábulo subsumir: o -s intermediário tem o som real de “s” (como em subsolo) ou de “z” (como em subzona)?

Entendemos que a pronúncia adequada é aquela com som de “s”, quando a letra -s se encontra entre uma consoante e uma vogal. Sabe-se que o som de “z” despontaria se a mencionada letra viesse entre vogais (casa, peso, vaso). Assim, devemos falar “subsunção” e “subsumir” com o -s sibilante, surdo (/ss/), evitando o barbarismo fonético oriundo da forma com /z/.

A regra é igualmente aplicável ao termo subsídio: o segundo -s – elemento de incontáveis casos de pronúncia equivocada – deve ter som de “s”, e não de “z”, conforme o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), em sua 5ª edição (2009). O curioso é que não temos dúvida em “subsolo” (com som de “s”, é claro!), mas temos em “subsídio”. Coisas da Língua…

Por fim, não perca de vista que os vocábulos subsistir, subsistente e subsistência apresentam-se no VOLP 2009 com pronúncia oscilante (/s/ ou /z/). O caso de obséquio é diferente: adveio do latim, tendo o -s valor de -z. Portanto, pronuncia-se obséquio /z/.

Portanto, se o tema “subsunção” é enquadramento, que tal nos enquadramos à pronúncia adequada: subsunção /s/, subsídio /s/ e subsistir /s/ ou /z/.

Essa foi a recomendação para os alunos em sala, após a correção da prova. De fato, puderam entender que a subsunção do termo à pronúncia correta é a subsistência da prosódia. Subsídios para quê?

Fonte: Carta Forense, outubro de 2012.

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